sábado, 20 de junho de 2009

VESTIBULAR UFPR 2009/2010

Confira as obras da prova de Filosofia da UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ:
  • DESCARTES, René. O Discurso do Método. (trad. Bento Prado Jr.) São Paulo: Nova Cultural, 1987, 4ed. (Col. Os pensadores)
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. (trad. Lívio Xavier) São Paulo: Nova Cultural, 1987, 4ed. (Col. Os Pensadores)
  • MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas (trad. Fábio Landa; Eva Landa). São Paulo: Martins Fontes, 2005. Capítulos III, IV e V.
  • PLATÃO. A República: Livro X (trad. Anna Lia Amaral de Almeida Prado) São Paulo: Martins Fontes, 2006.

PLATÃO - A REPÚBLICA (Livro X)

Por Ana Pismel

No livro IX, viu-se o término do percurso empreendido por Sócrates, Gláucon, Adimanto, Polemarco e os demais interlocutores a fim de saber o que é a justiça, tal como ver sua presença no interior da alma do homem. Conforme tudo o que entre eles ficou acordado, foi demonstrado que a justiça não só é mais útil ao homem que a possui, como proporciona uma vida equilibrada e prazerosa. Sócrates exprime ainda a satisfação que sente em ver com todas as conclusões ao afirmar – logo no inicio do livro X: “sobre muitas questões relativas à nossa cidade (...) tenho em mim que nós a fundamos da melhor maneira possível. Isso, porém, afirmo sobre tudo quando penso na poesia” (595 a). Sem dúvida a discussão resultou em uma concepção acerca do teor da justiça baseada nos liames de uma constituição interna da alma explorada de maneira muito engenhosa por Sócrates. No entanto, se voltarmos ao que ficou estabelecido dês de o livro II, reencontraremos a complexa questão da expulsão dos poetas da cidade perfeita.

Ainda que hesitante diante do grande respeito por Homero e pelos poetas trágicos, ele menciona novamente a questão da imitação, sobre a qual fará um novo exame, dessa vez à luz das conclusões da discussão acerca da justiça e tendo a cidade perfeita e sua constituição dado a ver claramente a alma do homem. Lembremos, com efeito, que no livro II essa questão já havia aparecido: logo no inicio da fundação da cidade perfeita, Sócrates expurga dela a figura do poeta trágico devido à propagação de mitos que não estariam de acordo com a constituição da cidade. Aqui não será diferente, e é aprofundando essa posição que tudo será reexaminado.

A nova roupagem dos fundamentos dessa argumentação aparece, logo de início, quando Sócrates recorre à teoria das idéias para embasar seu conceito de imitação, um dos grandes núcleos do livro X, sendo o segundo a exposição do principio de imortalidade da alma – igualmente fundamental para arremate da conclusão sobre a superioridade da justiça sobre a injustiça. Mas essa questão será abordada mais adiante.

Voltando a esse segundo argumento, é preciso observar que nesse horizonte artistas imitadores como o pintor e o poeta buscam criar imagens baseadas no aparente, ou seja, na natureza. Essa última, por sua vez, é feita à imagem das idéias mas não contém sua perfeição. Recorrendo a um exemplo do próprio Sócrates: temos a idéia de cama, vemos várias camas de formas, cores e tamanhos diferentes, feitas por artesãos, baseados na mesma e única idéia de cama. Então, um pintor, ao pintar uma cama, imita a imitação da idéia verdadeira desse objeto. Dessa maneira, a pintura da cama estaria a três graus da verdade, não tendo sequer com ela vínculo direto.

Junto ao pintor, podemos encaixar o poeta na qualidade de imitador. Pois assim como o primeiro imita, não aquilo que é verdadeiramente, mas o que aparenta ser, também o poeta faz o mesmo ao imitar todas as coisas sem ao menos conhecê-las. O imitador só é capaz de imitar todas as coisas por que só alcança um pouco de cada uma, “mesmo isso não passando de uma imagem inane” (598 e conferir.). com efeito, o imitador gera ilusão e aparenta conhecer, mesmo não conhecendo o objeto que imita em profundidade.

A imitação não caminha com a sabedoria nem cultiva a razão. Por isso ela não participa da verdade e, se não incentiva a parte da alma relativa à Filosofia, não pode ser útil à constituição da cidade perfeita. E, mesmo, afasta esse conhecimento, não tendo, assim, lugar nessa cidade. Ora, sendo o poeta trágico um “arauto do mito”, está em, oposição ao filosofo, cuja busca é o saber verdadeiro.

A poesia imita o homem em todas as suas contradições internas, conflitos, felicidades e infelicidades. E é ao representá-los que os coloca como verdades aparentes. Com isso, ela dificulta a educação do homem, na medida em que dando à ilusão aparência de verdade, afasta-os do conhecimento pleno do ser. O poeta é, nas cidades comuns, um formador de opinião, já que cria os mitos a serem tomados por todos. Por isso é que, como os pintores, e ainda mais que eles, não tem lugar numa cidade cuja constituição é regida pela Filosofia. E não pode haver contradições, que a poesia revelaria nos cidadãos.

Em seguida, vemos o principio de imortalidade da alma, outro ponto importante no Livro X, mobilizado por Sócrates para argumentar quanto á preocupação com a virtude, já que ela é a fonte da justiça. Em resumo:é feita uma comparação entre vícios da alma e doenças no corpo. Assim como pode haver doenças prejudicando o corpo pode haver também vícios prejudicando a alma. Baseado na premissa de que algo só pode ser destruído por outra coisa, a não ser que seja de sua própria natureza, Sócrates procura demonstrar que a alma é imortal pelo fato de que apesar de o corpo poder ser destruído por doenças, a alma não sucumbe diante dos vícios. Isso se dá por que esses vícios não prejudicam propriamente a alma que os carrega, mas recaem sobre os outros.

Sócrates ainda retoma a tese proposta do elogio à injustiça para demonstrar que, mediante sua análise, ela se mostra equivocada. Ele afirma, com efeito, que aos justos é que cabem todas as honras, ficando aos injustos as injurias. É o que permite ver isso é o ponto a que se chegou, que permite a ele4s observarem a alma em si mesma e nela a justiça e a injustiça e suas verdadeiras conseqüências.

O Mito de Er faz corroborar sua posição e arrematar todo o percurso de Sócrates na obra. Seu significado reside em chamar atenção para a busca da justiça, que levaria à felicidade tanto em vida quanto depois dela. Ao recorrer à idéia de vida depois da morte, Sócrates acrescenta mais um argumento à sua defesa da justiça, na medida em que, como depreendido do mito, a sorte das almas se dá mediante a conduta em vida, sendo que ela desencadeia tanto benefícios quanto punições.

O fechamento do percurso da obra retem, notavelmente, um teor poético. Tal característica leva à suposição de a situação dramática da poesia na cidade perfeita se deve, em parte, ao fato de Platão ter tido grande talento na escrita e inclinação poética. Esse traço não é, entretanto, empecilho no interior do percurso d´A Republica. Afinal, tomada em vários aspectos, não se pode negar “o fato incontestável de que muitos dos principais temas e conceitos que a Filosofia elegeu desenvolveu e consagrou, se originaram, direta ou indiretamente, do pensamento de Platão".

Platão, A República; tradução de Ana Lia de Almeida Prado; Martins Fontes, 2006.



MERLEAU-PONTY - Conversas

A partir das suas reflexões sobre o sensível Merleau-Ponty acentua que os nossos sentidos interagem entre si e com o mundo e formam a estrutura básica do pensamento, ou seja, o mundo percebido se constrói como um campo de presença e de significações no qual o sujeito se integra: a interpretação do mundo não se produz pela oposição entre sujeito pensante e objeto mas, estando no mundo, o interpretamos a partir de nossa situação, da nossa perspectiva no espaço e no tempo, da configuração do campo no qual estamos inseridos.
A percepção de si, do outro e do mundo ocorre, portanto, num contexto no qual se integram sujeito e objeto e se produzem as emoções, os comportamentos e o conhecimento; o sujeito percebe não como consciência nua, mas como corporeidade, isto é, como um todo que integra corpo e consciência, sensibilidade e refletividade, visível e vidente.

Capítulo I: O mundo percebido e o mundo da ciência
Já na introdução, Merleau-Ponty identifica a problemática que envolve a teoria do conhecimento desde Descartes e que marcou a história do pensamento moderno, que é a separação entre subjetivo e objetivo, consciência e mundo, interioridade e exterioridade. A tentativa de superar o senso comum leva à afirmação de que a nossa percepção do mundo é ilusória e precisa ser filtrada pelo conhecimento. Dessa perspectiva se construiu uma nova crença, a de que a ciência pode nos possibilitar um conhecimento objetivo da realidade, pode nos apresentar a verdadeira natureza das coisas.
O que se questiona não é o valor do conhecimento científico e de tudo que a ciência descobriu com seus métodos e seu rigor de pesquisa, mas a sua pretensão de ser o único saber válido sobre a realidade, o que significa questionar a noção de objetividade que sedimenta as pesquisas científicas, que pressupõe a separação sujeito-objeto e a mensuração expressa na análise quantitativa.

"Não se trata de negar ou de limitar a ciência; trata-se de saber se ela tem o direito de negar ou de excluir como ilusórias todas as pesquisas que não procedam como ela por mediações, comparações e que não sejam concluídas por leis, como as da física clássica, vinculando determinadas conseqüências a determinadas condições." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.6)

Em linhas gerais, os cientistas começam a mudar sua perspectiva de abordagem da realidade, reconhecendo que suas pesquisas não são exatas, isto é, não desvelam exatamente o objeto como pretendiam, mas precisam ser constantemente revisadas... Essa mudança de rumos da ciência na rejeição de um observador absoluto permite aproximá-la da arte e da filosofia, que redescobrem o mundo perceptivo que vivemos e que somos e elaboram “uma visão extremamente nova e característica do nosso tempo.”

Capítulo II: Exploração do mundo percebido: o espaço
A segunda “conversa” aborda o problema da compreensão do mundo da percepção a partir das noções de espaço que historicamente foram elaboradas pela ciência com auxílio da geometria euclidiana, da matemática ou das novas geometrias, cotejadas com as novas formulações da arte e do pensamento modernos.
A questão de fundo é compreender como o senso comum, as ciências e a arte explicam como percebemos as coisas na sua forma e grandeza. Cada nova pesquisa científica renova ou até revoluciona a concepção científica do mundo da percepção.
A reflexão sobre a definição de espaço permite a Merleau-Ponty estabelecer algumas convergências entre ciência e arte. No fundo, a interrogação de Merleau-Ponty é a de como acontece a relação sujeito-objeto no processo de percepção do mundo. A arte apresenta um “esquema espacial do objeto” que permite entender como percebemos uma coisa na sua dimensão espacial, isto é, como algo que possui uma forma e um tamanho que se dão em um campo perceptivo...
Merleau-Ponty retoma exemplos da filosofia para mostrar que “nossas relações com o espaço não são as de um puro sujeito desencarnado com um objeto longínquo, mas a de um habitante do espaço como seu meio familiar”, experiência que o racionalismo ou o empirismo não conseguiram decifrar precisamente porque partiam da separação sujeito-objeto.
A conclusão do texto se encaminha para o reconhecimento, na filosofia mais recente, de uma unidade entre espírito e corpo.

Capítulo III: Exploração do mundo percebido: as coisas sensíveis
A psicologia tradicional entendia a sensação como uma simples reação motora que exigia a interpretação intelectual. A psicologia moderna entende que a percepção ocorre num campo de relações no qual interagem objeto e sujeito; a experiência do sujeito no mundo é transitiva, isto é, não é cindida entre ação e interpretação, de modo que a qualidade (do objeto) se dá na experiência humana que lhe confere significado. “Existem qualidades bastante numerosas em nossa experiência que não têm quase nenhum sentido se as separarmos das reações que provocam em nosso corpo.”
Tem-se um modo de apresentação das coisas e uma maneira de significar que reconfiguram o objeto a partir da situação, dos sentidos e das emoções do sujeito. O objeto adquire significado no campo da minha experiência, que é a abertura pra o mundo no qual construo minha identidade. Nossa relação com as coisas expressa a nossa vida:

"As coisas estão revestidas de características humanas (dóceis, doces, hostis, resistentes) e, inversamente, vivem em nós como tantos emblemas das condutas que amamos ou detestamos. O homem está investido nas coisas e as coisas estão investidas nele." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.24)

Merleau-Ponty encerra essa “conversa” acentuando a tendência do pensamento moderno em superar o dualismo sujeito-objeto, legado cartesiano, para uma nova compreensão da situação do homem no mundo, tema dos próximos capítulos.

Capítulo IV: Exploração do mundo percebido: a animalidade
A passagem da ciência, arte e filosofia clássicas para a modernidade trouxe consigo o “despertar do mundo percebido”, diz Merleau-Ponty. Nossa atenção agora se volta ao espaço percebido, num reconhecimento de que só poderemos considerá-lo sob uma perspectiva limitada – a humana – e que tudo o que nos rodeia é como que “um espelho das condutas humanas”. O filósofo nos lembra que não estamos sós neste “mundo enigmático” em que vivemos:

"O mundo se oferece também aos animais, às crianças, aos primitivos, aos loucos, aos que o habitam à sua maneira, que também coexistem com ele." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.30)

Escritores clássicos teriam sido, de certa forma, indiferentes a essa relação de coexistência entre homens, animais, crianças, loucos e primitivos por estarem convencidos de uma ideia de “homem rematado”, o homem que é “possuidor” da natureza, como afirmava Descartes. O pensamento clássico concebe a razão humana como “reflexo de uma razão criadora”. Na modernidade porém, esse dogmatismo é questionado:

"Com certeza, nem o mundo da criança, nem o do primitivo, nem o do doente, nem com mais razão ainda, o do animal, na medida em que podemos reconstituí-lo por sua conduta, constituem sistemas coerentes, enquanto, ao contrário, o mundo do homem sadio, adulto e civilizado esforça-se por conquistar essa coerência. Porém, o ponto essencial é que o mundo não tem essa coerência, ela permanece uma ideia, ou um limite que de fato jamais é atingido..." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.34)

O pensamento moderno necessita buscar nestas formas de existência as limitações ao nosso conhecimento e ação, diz Merleau-Ponty. Restaria ao homem reconhecer suas ilusões e obscuridades, reconhecer que o mundo da rzão permanece sempre inacabado.
O autor conclui essa conversa afirmando que a visão que construímos das coisas é a nossa visão das coisas e que ela só será mais clara se não nos recusarmos a pensar a animalidade.

Capítulo V: O homem visto de fora
Na quinta “conversa” Merleau-Ponty afirma que, no decorrer de trinta séculos, muito já foi dito sobre o homem e que seria agora interessante, como nas “conversas” anteriores, uma análise daquilo que nossa experiência ingênua julga “completamente natural” a esse respeito.
Quando observamos o homem “de fora”, nos diz, parece que se impõe a distinção corpo/espírito, como em Descartes, que enfatizava essa distinção, mesmo reconhecendo a estreita relação entre ambos.
Atualmente os psicólogos nos dizem que não vivemos propriamente na consciência de nós mesmos, mas na experiência do outro; só percebemos que existimos no contato com o outro.

"Um bebê de alguns meses já tem habilidade suficiente para distinguir a simpatia, a raiva e o medo no rosto do outro, num momento em que ainda não poderia ter aprendido, pelo exame de seu próprio corpo, os sinais físicos dessas emoções. É portanto porque o corpo do outro, com suas diversas gesticulações, lhe aparece de imediato investido de uma significação emocional, é assim que ele aprende a conhecer o espírito, tanto como comportamento visível quanto na intimidade de seu próprio espírito. E o próprio adulto descobre na sua vida mesma o que sua cultura, o ensino, os livros, a tradição lhe ensinaram a nela ver. Nosso contato conosco sempre se faz por meio de uma cultura, pelo menos por meio de uma linguagem que recebemos de fora e que nos orienta para o conhecimento de nós mesmos." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.48-49)

O puro ser do homem – o espírito – só se realizaria de fato pela participação na vida do mundo e essa imagem de homem e de humanidade, diz o filósofo, é “bem diferente daquela da qual partimos”. A humanidade não é uma soma de indivíduos que, solitariamente adquirem a consciência de participar da mesma essência pensante, e também não se constitui num único Ser composto de uma pluralidade de indivíduos.
Finalmente, ele afirma que vivemos uma situação ambígua:

"Cada ser é só, e ninguém pode dispensar os outros, não apenas por sua utilidade – que não está em questão aqui -, mas para sua felicidade. Não há vida em grupo que nos livre do peso de nós mesmos, que nos dispense de ter uma opinião; e não existe vida “interior” que não seja como uma primeira experiência de nossas relações com o outro." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas – 1948, p.50)

Merleau-Ponty conclui a quinta “conversa” dizendo que o pensamento moderno nos ajuda a pensar que não podemos mais nos considerar como uma “comunidade de espíritos puros”. Ele nos convida a lançar um novo olhar sobre nós mesmos lançando primeiro o olhar para o exterior, sobre a nossa espécie.

Considerações finais:
A grande contribuição de Merleau-Ponty foi a crítica ao pensamento clássico, filosófico e científico, discutindo a herança cartesiana e refletindo sobre o caminho para superar o dualismo que fundou o pensamento moderno.

Fonte: HORN, Geraldo B. (org.) Discutindo textos filosóficos. Curitiba: Editora e Livraria do Chaim, 2008.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

DESCARTES

O DISCURSO DO MÉTODO ( René Descartes - 1637)

“O bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo, pois cada um pensa ser tão bem provido que mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não têm o costume de desejar mais disso do que eles possuem. E nisso não é verossímil que todos se enganem: antes, isso testemunha de que o poder de bem julgar e de discernir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual entre os homens; e, assim, que a diversidade de nossas opiniões não vem de sermos uns mais razoáveis do que os outros, mas apenas de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas. Pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é usá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios assim como das maiores virtudes e aqueles que seguem bem lentamente podem avançar muito mais se seguirem sempre o caminho certo do que fazem aqueles que correm dele e se afastam.
Quanto a mim, nunca presumi que meu espírito fosse em coisa alguma mais perfeito do que o das pessoas comuns. Desejei mesmo, freqüentemente, ter o pensamento tão rápido, a imaginação tão nítida e distinta ou a memória tão ampla e presente quanto a de alguns outros. E não conheço nenhuma outra qualidade que sirva à perfeição do espírito senão essas, pois quanto à razão, ou senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que está inteiramente em cada um de nós, e nisso seguir a opinião comum dos filósofos, que dizem que só há mais e menos no que se refere aos acidentes e de modo algum entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie.”

Assim se inicia o Discurso do Método, de Descartes. E este parágrafo inicial nos oferece aquela que, ao lado do célebre “Penso então existo”, constitui uma das fórmulas mais repisadas da História da Filosofia: “o bom senso é a coisa mais bem distribuída”. A primeira nos oferece uma evidência da qual parece difícil discordar e a segunda propõe uma idéia, convenhamos, de difícil aceitação... A discussão desse problema nos conduz diretamente para a importância do método – não apenas no plano do que hoje denominamos serem as ciências, mas na Ciência no sentido mais preciso que esse termo possuiria segundo Descartes, que envolve a reflexão filosófica sobre o modo como conhecemos as coisas...
O Discurso do Método é escrito em primeira pessoa e dirigido ao homem simples e de bom senso. Divide-se em seis partes apresentando as etapas que levaram o filósofo à criação de um método de raciocínio científico, apoiando-os em fundamentos firmes e irrefutáveis. Descartes descreve sua formação intelectual, relata o desencanto que lhe causaram as “letras” e proclama a superioridade das matemáticas. Finalmente, apresenta os preceitos metodológicos capazes de conduzir o espírito à verdade. Almeja e acredita poder obter a verdade absoluta, o conhecimento verdadeiro sobre o mundo.
O Discurso tem como intenções precisas:
a) estabelecer alguns passos para a fundação de um método;
b) apresentar um percurso que vai da dúvida sistemática à certeza da existência de um sujeito pensante;
c) inferir a respeito da separação entre sujeito e objeto do conhecimento;
d) elucidar um método universal capaz de garantir a verdade do conhecimento humano;
e) saber se existe alguma coisa que sobreviva à dúvida, se há algo que eu não tenha como duvidar.
Autor: Luiz Antonio Alves Eva. Professor do Dpto. de Filosofia/ UFPR

PLATÃO

A REPÚBLICA (Platão) – a alegoria da caverna e a relação entre a filosofia e o mundo das aparências

É famosa, e não por acaso, a alegoria da caverna, recitada no livro VII da República de Platão. Os motivos para tanto consistem em que ela parece fornecer uma descrição bastante precisa da maneira pela qual, para Platão, a filosofia parece se relacionar com o mundo habitual da experiência. Todavia, uma leitura mais atenta do texto revela mais que isso. Trata-se mesmo de instituir a maneira platônica de definir a relação entre a filosofia e o mundo, já de um ponto de vista completamente filosófico. Assim, o significado mesmo do mundo, de suas aparências e armadilhas, de sua contrapartida real (que ainda é mundo) e do alcance da forma como nos relacionamos com este real estão sendo ensinadas ao mesmo tempo que instituídas pelo texto.
Quem não perceberia que a filosofia, desde então, assume explicitamente o papel de dirimir as aparências, de onde a característica muito peculiar do conhecimento filosófico de julgar e apontar o melhor diante de um pior, enquanto conhece. Da mesma forma está presente ali a dupla promessa que será constante na história da filosofia: a de afastar a ilusão, ou pelo menos denunciá-la, e a de investigar o que ela escondia para resgatar as suas razões, e com isso alcançar o que esta mesma ilusão, por si mesma, não nos permitia ver...
O Livro VII faz parte de uma digressão que tem por objetivo mostrar como deve ser a educação do filósofo para que este governe de forma justa. Mas este é um aspecto de um tema mais amplo, dominante em toda a República. A discussão se encaminha no sentido de provar porque a cidade justa se diferencia da cidade injusta.
Quanto ao tema das Formas, é preciso cautela. O que Platão chama de Formas são, de fato, idéias que possuem mais realidades que as coisas existentes no mundo. Todos os leitores da República entendem deste modo o conceito. Mas não devemos conceber essa existência de forma separada, como quis Aristóteles. No pormenor, o livro VII mostra que as Formas devem ser objetos de pensamento. Tais objetos exercitam no filósofo o afastamento das realidades transitórias e sedutoras da vida cotidiana. São entidades que norteiam a investigação filosófica, que por sua vez comanda a cidade. Qualquer teoria filosófica tem esse tipo de conceito. O que diferencia Platão é a insistência na atribuição de “mais ser” a tais conceitos que às próprias coisas.
TEMÁTICA CENTRAL:
Epistemologia: duas formas de conhecimento, o sensível (mundo dos fenômenos) e o inteligível (mundo das idéias). Conhecer a verdade é ver com os olhos da alma ou com os olhos da inteligência.
Idéias complementares: *dialética: elevação das idéias, *teoria da reminiscência: ultrapassar o mundo das aparências ilusórias, *política:como influenciar as pessoas.

Autor: Paulo Vieira Neto. Professor do Depto. de Filosofia da UFPR.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

MAQUIAVEL

A QUESTÃO POLÍTICA EM MAQUIAVEL (O Príncipe)

Nascido em Florença, Itália, Maquiavel (1469-1527) foi um dos grandes responsáveis pela noção moderna de poder. Em Maquiavel também encontramos uma renovação do sentido e da relação entre ética e política. Como diz RUSSEL: “ É costume sentir-se a gente chocada por ele, e não há dúvida de que, às vezes, ele é realmente chocante.”
Maquiavel choca por fazer uma análise do homem considerando-o a partir de uma de suas facetas, a do egoísmo. Homem do Renascimento, ele procurou entender a natureza e os limites do poder político, a partir da realidade que vivia: a Itália, dividida, fragmentada em diversos principados e ducados numa constante briga pelo poder.
A intenção de Maquiavel é trazer regras de governo e ação diferentes das de sua época.
AS NOVIDADES TRAZIDAS POR MAQUIAVEL:
a) Desvincula ética e política: a primeira finalidade da política não seria a ética.
b) Os homens a quem se deve governar estão em constante conflito e não em acordo como se pensava antes. Há um grupo que quer governar o povo, e outro (o povo) que não ser governado pelo primeiro. Esse conflito estaria presente em todas os principados e estruturas do governo.
A arte de governar não levaria os homens ao bem comum, mas mediaria os conflitos sociais/forças opostas.
c) Poder político é poder de força: Quem tem o poder político deve se afirmar como uma
força acima das outras. A persuasão e o exemplo seriam as armas de um bom
governante. Para tanto, a força militar é que deveria conduzir a conduta dos homens.

Vejamos a passagem do capítulo XV D’O Príncipe, na qual se lê o seguinte:

"Resta ver agora como de comportar-se um príncipe com os súditos ou com os amigos. Como sei que sobre isso muitos escreveram, receio, fazendo-o eu também, ser considerado presunçoso, principalmente porque, ao tratar desse assunto, me afasto das regras estabelecidas pelos outros. Mas sendo minha intenção escrever coisa útil destinada a quem por ela se interessar, pareceu-me mais conveniente ir diretamente à efetiva verdade do que comprazer-me em imaginá-la. Muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos ou de cuja existência real jamais se teve notícia. E é tão diferente o como se vive do modo como de deveria viver, que aquele que desatende ao que se faz e se atém ao que se deveria fazer aprende antes a maneira de arruinar-se do que a de preservar-se. Assim, o homem que queira em tudo agir como bom acabará arruinando-se em meio a tantos que não são bons. Daí ser necessário a um príncipe, para manter-se, aprender a não ser bom, e usar ou não o aprendido, de acordo com a necessidade."
(O Príncipe, cap XV, trad. Antonio D’Elia, São Paulo: ed. Cultrix)

O trecho citado refere-se à relação entre o príncipe e seus súditos. Maquiavel fala da imagem pública do príncipe de uma maneira nova, não pensada até então.
Desde A República de Platão, se vinha falando de governos ideais e seus modelos. Maquiavel pensa diferente, pois parte de repúblicas e principados reais, em circunstâncias concretas. Usa dois conceitos: virtù e fortuna. A virtù seria a capacidade de realização de um príncipe e a fortuna, o conjunto das circunstâncias de alguma maneira imprevisíveis (não podem ser previstas totalmente). O bom político seria aquele que alia ambas.
O príncipe, segundo Maquiavel, pode ferir os princípios da ética, porque sua ação tem uma finalidade própria – mediar conflitos – e não uma finalidade ética.
Procura diferenciar o que aprece bom daquilo que aparenta ser bom. Não ser bom seria não corresponder às expectativas de bondade que se busca em um príncipe. Ele precisa, às vezes, ferir essas expectativas quando as circunstâncias exigem.
Um príncipe precisa ser valorizado por suas qualidades em mediar conflitos sociais e não ser apreciado moralmente em sua ação (não precisaria agradar). E a melhor ação nem sempre seria aquela que parece boa. O que deve ser visto como bom ou mau é aquilo que contribui ou não para a vida pública, independente de expectativas.
No entanto, o príncipe precisa governar sem perder o apoio dos governados. Como então precisaria ser seu comportamento?

Referências:
MAQUIAVEL. O príncipe. São Paulo: Ed. Cultrix.
Secretaria Estadual de Educação do Paraná. Livro Didático Público.
Seminário: Discutindo textos filosóficos. Curitiba: SESC/UFPR. 2006